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17 julho, 2012

Um quarto

Parece que foi ontem... Orador da pré-escola, o primeiro avião de papel feito e lançado ao ar, frustrando-me, sem conseguir voar. Parece que foi ontem, o primeiro amor inocente, a primeira briga na rua, a primeira vez que formei letras para escrever meu nome. Faz 25 anos que Gilberto Freyre se foi, faz 25 anos que estou por aqui, brincando de viver, vivendo por brincar. Parece que foi ontem, o primeiro passo, o primeiro inverno paranaense, a primeira geada, a primeira guinada na vida. Parece que foi ontem, fiz das ruas meu abrigo quando tudo era incerteza, ví uma mão estendida que me resgatou a vida. Parece que foi ontem que o ventre secou, sem jamais fazer falta; parece que foi ontem que a estrada me abria, quase descalço, um horizonte de possibilidades na ignorancia de uma destemida juventude. Parece que foi ontem o corpo maltratado, vendido por migalhas, usado sem pedido, pedido sem entrega. Parece que foi ontem, meus pés tentando me levar ao longe de onde eu sonhava ir... Parece que foi ontem o primeiro cigarro, o primeiro porre, o primeiro baseado, o primeiro 'não', o primeiro livro. Parece que foi ontem que quase joguei minha vida toda no lixo sem pensar duas vezes. Parece que foi ontem a desistencia pela vida, a desistencia pela desistencia pela vida! Parece que foi ontem que sangrei, me sabotei, me desconheci e me encontrei... Para novamente me perder. Parece que foi ontem o ultimo abraço naquela que dedicou muito da sua vida pela minha existencia. Parece que foi ontem, eu não sabia que aquele seria o ultimo encontro. Parece que foi ontem que me apaixonei novamente, parece que foi ontem que ela me sorriu e me convenceu que havia bondade e beleza neste mundo. Parece que foi ontem que decidi viver minha vida em paz. Parece que foi ontem, mas já há um quarto nisso tudo.