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11 junho, 2012

Somos nós

 
Sentada em meu colo ela me beija como se o amanhã não existisse, porém com a ingenuidade que reside no primeiro beijo de um casal apaixonado. Minhas mãos buscam por suas costas nuas, anseiam a pele na pele, calor no calor, redescobrem a cada milimetro deste pedaço de paraíso o fogo infernal que macula os pensamentos. Sua boca me transporta para a linha tênue do prazer e da loucura, insanos num balé simétrico de respirações quase que combinadas, músculos contraídos, mordidas suaves num pescoço que convida para o pecado. Olhares que instigam a malícia, sorrisos repletos de segundas, terceiras intenções. Somos apenas eu e ela no nosso mundo de fantasias, desejos e conquistas.

05 junho, 2012

Conto para ela





              Então seus olhos eram os mais distantes que eu já havia visto. Seus pensamentos, quem dera saber dos seus pensamentos. No trabalho a sua concentração carregava uma aura quase religiosa, sua beleza séria denunciava por vezes o desejo dos dias possuírem mais que 24 horas. Jamais me notara, jamais me dirigira um olhar ou cumprimentos, sequer sabia que eu existia. Em total divergência com este cenário, por incrível que pareça ela sempre se prostrava aos meus olhos; distante, mas comigo de tal forma que eu poderia sentir sua alva pele sem sequer ter um dia encostado em seu belo rosto. O céu e o oceano: parecem unidos, quando na verdade há uma imensidão os separando.
              Apressada, apressando, parecia sempre em outra sintonia. Como de costume, os dias passavam e o desejo de tê-la em meus braços era constante, indissolúvel, inquestionável. Dividia os corredores com ela algumas vezes, mas seus olhos insistiam em fitar o chão, pareciam tímidos, parecia não querer contato, recusavam quaisquer tentativas de observação.  Os ventos percorreram seus caminhos e eu não encontrava meio nem coragem para me aproximar. Certa vez tão próximos ficamos que, por Deus, eu poderia congelar aquele instante só para apreciá-la por uma eternidade... E então dar vida à imaginação. Mas nada aconteceu novamente.
             Os dias se arrastavam como grandes maltrapilhos, apanhados pela letargia mórbida de um destino sem piedade, sem intenção de que as estações completassem seu ciclo, sem o destino querer trazê-la para mim. Um dia, dois dias, dez dias, vinte dias... Trazê-la para meus braços e então beijá-la como sempre tive vontade, como há muito desejara: sonho distante. Os locais por onde a via agora eram outros, casa nova para desejo antigo; antes você caminhava longe demais das minhas mãos, contudo jamais distante dos meus olhos e pensamentos, mas nós estávamos todos lá e agora eu conseguia vê-la mais vezes, de diversos modos diferentes e inusitados. Cruzávamos quase que sempre pelos corredores, você tão linda com sua seriedade quase britânica; eu meio bobo, como um menino tímido e pobre que namora a bicicleta nova da vitrine observava seus passos tentando decifrar suas emoções, sua fixação nos papéis, protocolos, por vezes gargalhava com os amigos...
             Em um dia como muitos outros, cansado de tudo e todos, o telefone toca. Exito por um instante mover minhas mãos em direção ao som estridente que insiste em percorrer minha mente, mas inevitavelmente alcancei o aparelho e eis que tomo um susto. É ela! Uma eternidade separava aquele momento da ultima vez que havíamos trocado meias palavras em um cinzento outono, empoeirado pelo passado. Conversamos poucos minutos, mas o bastante para reanimar um dia sem vida. Ouvir sua voz melodiosa, sentir entendimento e afinidade nas palavras com alguém que não se pode ver é a maravilha que ‘Bell’ tornou possível. Uma ligação de poucos minutos que mudava, apartir dalí, os rumos de toda historia.
             Então seus olhos eram os mais enigmáticos que eu já havia visto. Estávamos em frente a minha faculdade num encontro que eu desejava há muito tempo. Eu estava assustado, incrédulo, sem entender o motivo para alguém tão interessante dispor do seu tempo para conversarmos. Mas até este momento enfim chegar passamos dias conversando, nos descobrindo. Ela era divertida, eu tentava diverti-la também; conversávamos com um respeito quase santo e nossas palavras eram revestidas de educação e polidez. Parecíamos velhos amigos, combatentes de guerra que permaneceram décadas sem se falar e que agora precisavam aproveitar o tempo que tinham, pois nunca é tarde para a neblina se dispor sobre o verde gramado, sepultando segredos jamais revelados. Após alguns desencontros, muitas tentativas em vão lá estávamos nós... Ela, amavelmente bela, divertida, trazia no enigmático olhar um mistério que gritava, ansiava por ser revelado.  Como uma criança acuada após uma traquinagem eu estava encolhido, tenso, sem acreditar no que acontecia diante dos meus olhos. Ela, a pessoa que eu seguia há anos por entre corredores mudos, que nunca se importam com aqueles apressados que trafegam com papéis, que buscam esconder suas aflições do mundo - pois a medida das aflições não é a mesma para todos, não é necessário compartilhar com os demais suas dores, acredita-se erroneamente ser mais fácil suportar as dores da vida quando se está sozinho - se prostrava ao alcance das minhas mãos, dos meus sedentos lábios. O tempo de brincar de pique - esconde havia acabado, compartilhávamos do mesmo ar, eu a tinha ao meu lado. Sem quebra-cabeças, sem o labirinto desumano que me separou dela por tanto e tanto tempo.
              Então seus lábios eram os mais doces que eu já havia provado. Sua sedosa pele, a respiração ritmada, os ciumentos cabelos que insistiam em separar lábios que, por Deus, pareciam terem sidos concebidos um ao outro. O beijo que levou anos para acontecer marcaria agora alguns poucos segundos para a eternidade. Neste instante eterno tudo e tanto se passou em minha mente, um turbilhão de emoções; eu poderia congelar este momento para relembrá-lo por toda a vida. Quase não acreditava em tudo que acontecia. Meus dedos, desbravadores, buscavam alento por trás da sua cabeça enquanto nossos lábios dialogavam, enquanto nossos corpos se esquentavam, enquanto o desejo se inflamava mais e mais.
              Demorou um pouco, mas o desejo inflamado se tornou combustível fácil quando diante dos meus olhos estava ela, despida, com o corpo arrepiado com meus beijos. Abracei-a enquanto minhas mãos percorriam um terreno nunca antes desbravado; seus olhos cerrados, os lábios mordidos, a respiração ofegante, indícios de que estávamos nos entendendo. A luz baixa desenhava seu corpo belo entre os alvos lençóis que a abraçavam... Seus seios não eram pequenos nem grandes, eram jovens. Eram deliciosos assim como seu pescoço, que minha boca insistia em morder ainda que a dona deste oferecesse resistência; nossos corpos nus, seus lábios percorrendo meu corpo, suas mãos delicadamente buscando algo, sensações novas, sensações incríveis, momentos inesquecíveis. Entrelaçados, nada mais importava naquele instante, apenas nós dois. Eu e ela. A invadia com força, como marujos em meio a um naufrágio nossas mãos buscavam agarrar com força o que estivesse ao alcance, numa tentativa desesperada de que isso tudo não acabasse, desejando perpetuar os sabores, os aromas, os calafrios, as caricias e as bobagens sussurradas ao ouvido por entre beijos e mordiscadas. Estávamos enfim juntos, estávamos abraçados e no ar a certeza de que estive com aquela que habitou meu imaginário por tanto e tanto tempo.
               Então seus olhos eram os mais belos que eu já havia visto...