16 agosto, 2012

Névoa



Meus olhos entorpecidos fitam a mancha escura que tenta tomar toda dimensão d'água; tal qual névoa noturna esta mancha move-se lentamente, abraçando o espaço, parte de mim se desprendendo para sempre do meu ser. Olho para os lados, estou sozinho. Não há novidades nesta afirmação, estou envolto por um silêncio quase palpável.
A mancha cresce ao passo que meus sonhos se vão, sonhos que jamais poderia realizar. Sinto uma leve dormencia pelos meus braços que evolui para formigamento, parece que cem mil agulhas brincam covardemente de beijar meus membros superiores. Uma lágrima corre pelo meu rosto, denunciando a angústia -e até o medo- da hora de partir mas preciso ser forte, apesar do fato de que ninguém presenciará este momento e portanto não há motivos para conter as emoções.
O vermelho rubro é tão lindo... lembro-me dos lábios daquela que tanto amei, mas que preferiu a aventura e as desventuras de outros braços em detrimento a todo meu amor. Não há explicação para a traição quando se oferece o amor de bandeja, um sentimento tão puro e verdadeiro. A água já não possui suas caracteristicas naturais, possui agora um odor doce que adentra minhas narinas, envolve meus pensamentos, faz com que meus sentidos fiquem estranhamente aguçados.
Uma aura sepulcral paira ao meu redor, sinto uma coceira proximo aos olhos mas já não tenho forças em meus braços sequer para move-los para fora d'água e sua aparência, antes vívida e alva possui a roxidão da vida que se despede de mim, deixando marcas horrendas e tristes. Uma hora dessas o dia está surgindo, colorindo o horizonte em tons azulados e alegres, contrastando com meus ultimos momentos nesta agonizante jornada que todos chamam de vida. Ouço a movimentação dos trabalhadores matinais, agarrando seus destinos na jornada diária de mentir felicidade para alegrar os outros, se vendendo barato todos os dias por poucas migalhas ao fim do mês. Meretrizes escravas da sua propria sorte.
Olho para dentro d'água e não consigo sequer enxergar minhas pernas, meu corpo está envolto completamente pelo escarlate que não me pertence mais. Sinto uma brisa lamber meu rosto, seria a morte afagando meus cabelos, dando boas vindas para uma jornada desconhecida?? Penso ter ouvido passos, talvez seja alucinação... adormeço lentamente, sentindo meu coração machucado bater assincrono cada vez mais rápido enquanto um forte enjôo me toma. Já não percebo mais nada, tudo está terminado.

13 agosto, 2012

Dia dos pais


Ser pai é entender que um dia já foi filho e agora, com seu rebento nos braços, enxergar em seus olhos os seus proprios anseios, desejos, medos, vividos outrora. É como ter uma segunda chance de vida, uma chance de viver tudo de novo mas com a perspectiva de espectador, coadjuvante. É enxergar a sí mesmo em uma nova vida.

11 agosto, 2012

Caminhos



Há algum tempo observo seus passos, você nem percebia. Fitava seus olhos a distância, tentando decifrar seus pensamentos com enorme fixação em suprir seus desejos, buscava entender o que havia na magia que eu via diante dos meus olhos. Uma mulher diferente que me fascinava.
Seus caminhos, quero compartilhar os esforços em seguir em frente ao encontro do horizonte com as mãos dadas, cabeças erguidas e sorriso no rosto. Quero olhar para o lado e ver você, quero oferecer minha mão quando dela precisar. Quero olhar para trás e ver nossas pegadas no chão, denunciando que nossas escolhas talvez nem sempre tenham sido as mais corretas mas foram as nossas escolhas; batalhamos, sorrimos, choramos, juntos. E por isso venceremos.
Seus caminhos, nossos caminhos.

05 agosto, 2012

Eu aprendi


Eu aprendi que não é preciso vencer para, de fato, ganhar. Aprendi que o mesmo vento que arrasa tudo em furacões de proporções gigantescas é a brisa que brinca entre os cabelos da mulher que amo.
Tudo ocorre em ciclos, nada acontece por acaso e tudo tem seu local para acontecer, ainda que para nossa minúscula e limitada compreensão tudo pareça fora de lugar.
Aprendi a perdoar, aprendi a não errar. Aprendi a não sofrer, aprendi a segurar meus instintos e avaliar cada decisão como se esta afetasse não somente as pessoas diretamente envolvidas, mas sim suas futuras gerações pois uma semente lançada ao solo não gera apenas uma árvore, mas também o sorriso da criança que brinca de balanço em frondosos galhos.
Aprendi a errar, aprendi a reconhecer meus erros e com isso tentar não comete-los novamente. Aprendi a ouvir meu coração, aprendi verdadeiramente a ouvir as pessoas, captar seus ensinamentos e absorver aquilo que me é importante, para o ontem -que já passou, mas permanece em nossas vidas- para o hoje, que é presente e precisa nos ser um presente e para o amanhã, que nós ainda não o temos mas vivemos em função dele.
Aprendi a sorrir, aprendi que o sorriso liberta a alma. O sorriso é a forma encontrada para se doar ao proximo da maneira mais singela e pura que existe sem precisar proferir uma só palavra. Eu aprendi que preciso continuar, seguir adiante, erguer a cabeça e fazer do hoje o dia mais maravilhosamente belo e produtivo que já tive.

17 julho, 2012

Um quarto

Parece que foi ontem... Orador da pré-escola, o primeiro avião de papel feito e lançado ao ar, frustrando-me, sem conseguir voar. Parece que foi ontem, o primeiro amor inocente, a primeira briga na rua, a primeira vez que formei letras para escrever meu nome. Faz 25 anos que Gilberto Freyre se foi, faz 25 anos que estou por aqui, brincando de viver, vivendo por brincar. Parece que foi ontem, o primeiro passo, o primeiro inverno paranaense, a primeira geada, a primeira guinada na vida. Parece que foi ontem, fiz das ruas meu abrigo quando tudo era incerteza, ví uma mão estendida que me resgatou a vida. Parece que foi ontem que o ventre secou, sem jamais fazer falta; parece que foi ontem que a estrada me abria, quase descalço, um horizonte de possibilidades na ignorancia de uma destemida juventude. Parece que foi ontem o corpo maltratado, vendido por migalhas, usado sem pedido, pedido sem entrega. Parece que foi ontem, meus pés tentando me levar ao longe de onde eu sonhava ir... Parece que foi ontem o primeiro cigarro, o primeiro porre, o primeiro baseado, o primeiro 'não', o primeiro livro. Parece que foi ontem que quase joguei minha vida toda no lixo sem pensar duas vezes. Parece que foi ontem a desistencia pela vida, a desistencia pela desistencia pela vida! Parece que foi ontem que sangrei, me sabotei, me desconheci e me encontrei... Para novamente me perder. Parece que foi ontem o ultimo abraço naquela que dedicou muito da sua vida pela minha existencia. Parece que foi ontem, eu não sabia que aquele seria o ultimo encontro. Parece que foi ontem que me apaixonei novamente, parece que foi ontem que ela me sorriu e me convenceu que havia bondade e beleza neste mundo. Parece que foi ontem que decidi viver minha vida em paz. Parece que foi ontem, mas já há um quarto nisso tudo.

15 julho, 2012

Miles2











11 junho, 2012

Somos nós

 
Sentada em meu colo ela me beija como se o amanhã não existisse, porém com a ingenuidade que reside no primeiro beijo de um casal apaixonado. Minhas mãos buscam por suas costas nuas, anseiam a pele na pele, calor no calor, redescobrem a cada milimetro deste pedaço de paraíso o fogo infernal que macula os pensamentos. Sua boca me transporta para a linha tênue do prazer e da loucura, insanos num balé simétrico de respirações quase que combinadas, músculos contraídos, mordidas suaves num pescoço que convida para o pecado. Olhares que instigam a malícia, sorrisos repletos de segundas, terceiras intenções. Somos apenas eu e ela no nosso mundo de fantasias, desejos e conquistas.

05 junho, 2012

Conto para ela





              Então seus olhos eram os mais distantes que eu já havia visto. Seus pensamentos, quem dera saber dos seus pensamentos. No trabalho a sua concentração carregava uma aura quase religiosa, sua beleza séria denunciava por vezes o desejo dos dias possuírem mais que 24 horas. Jamais me notara, jamais me dirigira um olhar ou cumprimentos, sequer sabia que eu existia. Em total divergência com este cenário, por incrível que pareça ela sempre se prostrava aos meus olhos; distante, mas comigo de tal forma que eu poderia sentir sua alva pele sem sequer ter um dia encostado em seu belo rosto. O céu e o oceano: parecem unidos, quando na verdade há uma imensidão os separando.
              Apressada, apressando, parecia sempre em outra sintonia. Como de costume, os dias passavam e o desejo de tê-la em meus braços era constante, indissolúvel, inquestionável. Dividia os corredores com ela algumas vezes, mas seus olhos insistiam em fitar o chão, pareciam tímidos, parecia não querer contato, recusavam quaisquer tentativas de observação.  Os ventos percorreram seus caminhos e eu não encontrava meio nem coragem para me aproximar. Certa vez tão próximos ficamos que, por Deus, eu poderia congelar aquele instante só para apreciá-la por uma eternidade... E então dar vida à imaginação. Mas nada aconteceu novamente.
             Os dias se arrastavam como grandes maltrapilhos, apanhados pela letargia mórbida de um destino sem piedade, sem intenção de que as estações completassem seu ciclo, sem o destino querer trazê-la para mim. Um dia, dois dias, dez dias, vinte dias... Trazê-la para meus braços e então beijá-la como sempre tive vontade, como há muito desejara: sonho distante. Os locais por onde a via agora eram outros, casa nova para desejo antigo; antes você caminhava longe demais das minhas mãos, contudo jamais distante dos meus olhos e pensamentos, mas nós estávamos todos lá e agora eu conseguia vê-la mais vezes, de diversos modos diferentes e inusitados. Cruzávamos quase que sempre pelos corredores, você tão linda com sua seriedade quase britânica; eu meio bobo, como um menino tímido e pobre que namora a bicicleta nova da vitrine observava seus passos tentando decifrar suas emoções, sua fixação nos papéis, protocolos, por vezes gargalhava com os amigos...
             Em um dia como muitos outros, cansado de tudo e todos, o telefone toca. Exito por um instante mover minhas mãos em direção ao som estridente que insiste em percorrer minha mente, mas inevitavelmente alcancei o aparelho e eis que tomo um susto. É ela! Uma eternidade separava aquele momento da ultima vez que havíamos trocado meias palavras em um cinzento outono, empoeirado pelo passado. Conversamos poucos minutos, mas o bastante para reanimar um dia sem vida. Ouvir sua voz melodiosa, sentir entendimento e afinidade nas palavras com alguém que não se pode ver é a maravilha que ‘Bell’ tornou possível. Uma ligação de poucos minutos que mudava, apartir dalí, os rumos de toda historia.
             Então seus olhos eram os mais enigmáticos que eu já havia visto. Estávamos em frente a minha faculdade num encontro que eu desejava há muito tempo. Eu estava assustado, incrédulo, sem entender o motivo para alguém tão interessante dispor do seu tempo para conversarmos. Mas até este momento enfim chegar passamos dias conversando, nos descobrindo. Ela era divertida, eu tentava diverti-la também; conversávamos com um respeito quase santo e nossas palavras eram revestidas de educação e polidez. Parecíamos velhos amigos, combatentes de guerra que permaneceram décadas sem se falar e que agora precisavam aproveitar o tempo que tinham, pois nunca é tarde para a neblina se dispor sobre o verde gramado, sepultando segredos jamais revelados. Após alguns desencontros, muitas tentativas em vão lá estávamos nós... Ela, amavelmente bela, divertida, trazia no enigmático olhar um mistério que gritava, ansiava por ser revelado.  Como uma criança acuada após uma traquinagem eu estava encolhido, tenso, sem acreditar no que acontecia diante dos meus olhos. Ela, a pessoa que eu seguia há anos por entre corredores mudos, que nunca se importam com aqueles apressados que trafegam com papéis, que buscam esconder suas aflições do mundo - pois a medida das aflições não é a mesma para todos, não é necessário compartilhar com os demais suas dores, acredita-se erroneamente ser mais fácil suportar as dores da vida quando se está sozinho - se prostrava ao alcance das minhas mãos, dos meus sedentos lábios. O tempo de brincar de pique - esconde havia acabado, compartilhávamos do mesmo ar, eu a tinha ao meu lado. Sem quebra-cabeças, sem o labirinto desumano que me separou dela por tanto e tanto tempo.
              Então seus lábios eram os mais doces que eu já havia provado. Sua sedosa pele, a respiração ritmada, os ciumentos cabelos que insistiam em separar lábios que, por Deus, pareciam terem sidos concebidos um ao outro. O beijo que levou anos para acontecer marcaria agora alguns poucos segundos para a eternidade. Neste instante eterno tudo e tanto se passou em minha mente, um turbilhão de emoções; eu poderia congelar este momento para relembrá-lo por toda a vida. Quase não acreditava em tudo que acontecia. Meus dedos, desbravadores, buscavam alento por trás da sua cabeça enquanto nossos lábios dialogavam, enquanto nossos corpos se esquentavam, enquanto o desejo se inflamava mais e mais.
              Demorou um pouco, mas o desejo inflamado se tornou combustível fácil quando diante dos meus olhos estava ela, despida, com o corpo arrepiado com meus beijos. Abracei-a enquanto minhas mãos percorriam um terreno nunca antes desbravado; seus olhos cerrados, os lábios mordidos, a respiração ofegante, indícios de que estávamos nos entendendo. A luz baixa desenhava seu corpo belo entre os alvos lençóis que a abraçavam... Seus seios não eram pequenos nem grandes, eram jovens. Eram deliciosos assim como seu pescoço, que minha boca insistia em morder ainda que a dona deste oferecesse resistência; nossos corpos nus, seus lábios percorrendo meu corpo, suas mãos delicadamente buscando algo, sensações novas, sensações incríveis, momentos inesquecíveis. Entrelaçados, nada mais importava naquele instante, apenas nós dois. Eu e ela. A invadia com força, como marujos em meio a um naufrágio nossas mãos buscavam agarrar com força o que estivesse ao alcance, numa tentativa desesperada de que isso tudo não acabasse, desejando perpetuar os sabores, os aromas, os calafrios, as caricias e as bobagens sussurradas ao ouvido por entre beijos e mordiscadas. Estávamos enfim juntos, estávamos abraçados e no ar a certeza de que estive com aquela que habitou meu imaginário por tanto e tanto tempo.
               Então seus olhos eram os mais belos que eu já havia visto...

05 novembro, 2011

Retrato dos dias.


Não importa mais o que o coração diz, nem tampouco importa o que as ações demonstram. Não vale mais as palavras de carinho, os olhares ternos, as palavras de conforto, o apontar para o horizonte quando tudo parece não fazer sentido. Se mostramos a verdade, deixamos claro nossas intenções -as melhores e mais louvaveis possiveis, somos taxados de caretões, demodés, somos "improprios para o consumo".
Consumam merda, não se dá pérolas a porcos.

03 novembro, 2011

The Ballad Of The Sad Young Men





The Ballad Of The Sad Young Men
Sing a song of sad young menGlasses full of ryeAll the news is bad again soKiss your dreams goodbye
All the sad young men sitting in the barsKnowing neon nights missing all the starsAll the sad young men drifting through the townDrinking up the night trying not to drownAll the sad young men singing in the coldTrying to forget that they're growing oldAll the sad young men choking on their youthTrying to be brave, running from the truth.Autumn turns the leaves to goldSlowly dies the heartSad young men are growing oldAnd that's the cruelest partAll the sad young men seek a certain smileSomeone they can hold for a little whileTired little girl does the best she canTrying to be gay for her sad young manWhile the grimy moon watches from aboveAll the sad young men play of making loveMisbegotten moon shine for sad young menlet your gentle light guide them home tonightAll the sad young men


Ponto final



É o adeus suprimido, denuncia que tudo está acabado.
Pode ser simples, pode pesar uma tonelada, pode ser sutil ou pode ser escrito se valendo de um balde de tinta. Vários pontos finais em conjunto dão vida à esperança em forma de reticencias; Pode significar um capricho, um mero desleixo, deslize, desdém. Um ponto final pode ser tudo o que você precisa para virar a página e começar uma nova historia...
Um ponto final pode ser o inicio da mudança. Inevitavel, a tinta da caneta não é eterna e o grafite não é gigantesco.
Cabe a você mudar o rumo da historia, do começo ao fim. O ponto final é você quem escreve.
É o silencio traduzido para o papel.

16 outubro, 2011

5 anos \o/




Tudo começou faz 5 anos, no dia 17/10/2006. Inúmeros pensamentos, tanto para escrever, tanto para ganhar vida na forma escrita, surgiu então uma idéia, um blog.
E o primeiro POST saiu do papel, o blog ganhou vida e se fez realidade.

Veja a primeira postagem >>

De lá pra cá muito aconteceu, muito mesmo. Profissionalmente passei por 4 empregos, pessoalmente falando passei por 3 namoros (uma bailarina, uma professora e uma estudante), passei também por inumeras provas de aprendizagem, cresci muito, reclamei demais, quase abandonei isso aqui. Inumeras vezes.
Inumeras vezes também mudei o layout deste blog, passando de tons agradáveis para o sombrio fundo preto. Oscilei meu humor nestes 5 anos, o que me credenciou a quase apagar de vez este blog e não retornar mais a escrever. Depois, acreditem, a falta de memória condenou meus pensamentos à gaveta mais sombria dos meus dias: esqueci a senha de acesso.
Após inumeros e-mails para a equipe do Google consegui reaver o acesso, e comecei então a postar, cada vez mais, cada vez com mais entusiasmo (mas não como outrora).
Com o advento das redes sociais agora você, caro pensador, pode também compartilhar meus pensamentos no Facebook. Basta clicar ao lado da postagem e mandar brasa!! Pode também me fazer perguntas via o icone do Formspring.com
Have fun =)

5 anos, mais de 10000 acessos (coisa louca para quem não divulga um blog, não o joga em outdoors e afins), inumeros posts que retratam minha vida, meus pensamentos, como eu sou.
Agradeço a você pelo carinho, pelos inumeros minutos que dedicou da sua vida para ler meus pensamentos. Você riu, se emocionou, se encantou, enfureceu... Você viveu e compartilhou um pouquinho da sua vida com o que eu compartilho com você.
Muito obrigado, de coração. Que venham mais 5 anos!!

Quem quiser manter contato, adicione no Facebook:
FACEBOOK

Deixo uma musiquinha para acalentar vossas almas:




 Imagem: http://www.blog.agenciafire.com.br

De uma vez por todas



Ainda que você viesse ao meu encontro, segurasse minhas mãos e dissesse que me ama, que sempre acreditou em meu potencial, sempre me quis ao seu lado, mesmo assim eu não lhe perdoaria. Não conseguiria olhar em seus olhos, acreditar nas palavras de uma boca que só fez proferir maldades sobre mim; não conseguiria sequer sentir pena da sua existencia mesquinha e doentia. Incomodo-me em saber que respiro o mesmo ar que você.
Lembro-me de quando chegavas perto mas não tocava, olhava mas não me via, dizia e eu nada entendia. Você matou todas as possibilidades de um dia eu sentir amor por sua existencia. Jamais quis saber dos seus, ignorava nossa presença e pensava apenas nos seus quereres. Só lamento a necessidade de possuir o sangue imundo que um dia correu em suas veias. O sangue que você inumeras vezes viu e observou com prazer ele escorrer .
Se algum dia senti algo bom por você, neste momento minha consciencia não habitava meu ser.

08 outubro, 2011

Da saudade que jamais existiu




A chuva fina cai lá fora e eu, envolto em pensamentos enquanto a xícara de café esquenta minhas mãos, penso em você. Carinhosamente recordo os momentos em que estivemos juntos naquele distante outono, quando caminhávamos de mãos dadas ouvindo apenas o quebrar das folhas secas sob nossos pés enquanto vez ou outra cochichava afetuosidades em seu ouvido, só para ver seu sorriso colorindo tudo ao nosso redor. Como era doce sua voz, como foram felizes os momentos em que tive você em meus braços.
Observo as gotas da chuva riscarem minha janela, crianças correm na rua em uma tentativa frustrada de manterem-se secos, o vento umido acaricia meu rosto de feição triste e pouco depois -assim como você- vai embora acariciar outros rostos na multidão. Busco um cigarro e o acendo, certo de estar cavando minha sepultura embora isso jamais tenha me assustado. Viver é correr riscos, viver é estar disposto a ir do céu ao inferno em questão de segundos se necessario for.
O balé da fumaça começa diante de meus olhos, percebo alguem ao longe caminhando sem se preocupar com a chuva que lava seu corpo; deve estar sentindo alguma insana necessidade de lavar também sua alma, expulsar seus sentimentos ruins, sentir-se leve. Aquela cena mexe comigo e tomado por um subito desejo de me despir dos meus fantasmas repouso minha xicara de café e calço meus chinelos... Poucos segundos depois estou eu no papel principal deste drama perambulando debaixo daquilo que pretendia manter-me limpo dos meus pudores, livre dos meus pensamentos e lembranças do passado. Lembranças que atormentam minha vida, lembranças que chegam de mansinho enchendo meu coração de ternura e acabam sempre por irem embora deixando meus olhos marejados. Não será possivel esquecer você, jamais.

Mantenha-se à direita




Nas calçadas;
nas esquinas;
nas estações de metrô;
nas escadas;
nas escadas rolantes;
nas aglomerações;
nos dias de sol;
nos dias de chuva;
nos becos;
nas entradas;
nas saídas;
nas piscinas;
nas corridas;
nas vidas.

06 outubro, 2011

Hiperbole




Seu sorriso tem o poder de acalentar a furia de mil exércitos em guerra, ainda assim sente-se satisfeito em apenas inundar meu coração de alegria. Seu sorriso é um elogio à beleza, faz do outono uma eterna primavera, torna o cinza dos céus chuvosos frondosos arco-iris em tons vívidos.
Todo instante que semeias seu sorriso ao vento, e como por sorte de principiante meus olhos captam tamanha perfeição dos seus lábios, meu dia toma contornos deslumbrantes, meus caminhos se iluminam, se enchem de graça.

De Fernando Pessoa:
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

05 outubro, 2011

Pormenores



Dos pensamentos, o desejo da infelicidade.
Dos caminhos, a certeza do erro iminente.
Das palavras, o odor da falsidade.
Dos sorrisos, prevalece a vastidão do vazio.
Das intensões, sabe-se que não houve nem metade.
Das desilusões, alicerces dos edificios.
Das brincadeiras, a repudia pelo sim.
Dos momentos, recordações sem sentido.
Das recordações, momentos desnecessarios.
Das mentiras, fidelidade em cada ato.
Dos olhares, maneiras de escapar do absurdo.
Da perplexidade, a certeza de novos rumos.
Das mudanças, o caminho mais sensato para os nossos dias.

19 setembro, 2011

Somos nós


Estamos morrendo, dia após dia; nada que façamos poderá reverter este placar injusto.
Nossos galhos são jovens, ainda somos frágeis e indefesos diante das tormentas. Mas somos jovens, e todos os jovens são dotados de uma coragem que parece armadura diante dos perigos impostos pela vida. Mesmo que a ventania teime em nos derrubar, vamos deitar de lado, tirar um cochilo e em poucos instantes estaremos em pé novamente. Mais fortes, mais resistentes. Menos jovens. Menos vivos.
Nossos galhos estão maduros, somos capazes de gerar frutos agora. Uns bons, outros ruins, mas todos ainda são frutos e não conseguem se lançar muito longe de nossos galhos maduros. Nossas folhas brincam de ciranda com a brisa de fim de tarde, nossa frondosa magnitude é percebida à distancia enquanto nos despedimos do sol uma vez mais. A noite cai e com ela a certeza que estamos ainda mais maduros. Menos jovens. Menos vivos.
Nossos galhos estão quebradiços, não suportam mais o velho balanço das crianças. Estamos frageis, enrugados, nossas frutas estão escassas e outros de nós já podemos perceber ao redor de nós: são crias nossas, gerados das sementes dos nossos frutos quando ainda jovens. Estes são jovens, frágeis e indefesos, assim como nós agora. A noite cai, um novo dia nasce mas o sol não retorna como outrora; estamos agora pequenos, jovens, indefesos, frágeis.

Mais nada


Dos seus olhos percebo surgir uma brilhante luz, que ilumina meus passos enquanto sua doce voz indica a direção certa. Sua sedosa pele me faz crer que Deus foi perfeito em conceber criatura tão bela; seus cabelos, bobos ciumentos ajudados pela brisa gélida da manhã, buscam esconder seus traços que me fizeram ser dono de tamanho carinho por ti.
Busco-te pelas esquinas, vagueio pelas ruas, indago seu nome a estranhos; a encontro fazendo morada em meu coração. Dificil disfarçar, impossivel te esquecer. Tão óbvio te querer, perfeito por você me apaixonar. Te quero em meus braços, minha princesinha linda.

13 setembro, 2011

Seus olhos (caminho)


Então a vi pela primeira vez. Era timidamente bela, me olhou com olhos apreensivos e sorriu. As poucas palavras que gentilmente trocamos insistiram em fazer moradia na minha mente, tão logo a deixei em campo de combate para o debute por ela tanto esperado.
Precisava encontrar meu caminho em meio às linhas de frente, precisava perceber o momento correto para uma apresentação digna das minhas expectativas; nunca fui realmente bom quando em terreno desconhecido e, afinal, o combate sempre reserva inumeras surpresas durante a batalha.
Então a vi pela segunda vez. Era timidamente bela, me olhou com olhos apreensivos e sorriu.